Da Ucrânia a Angola: Os Maiores Ciberataques que Abalaram Operadoras de Telecomunicações no Mundo – Correio da Kianda

O ciberataque que atingiu a UNITEL colocou Angola no mapa de uma ameaça global que, nos últimos anos, tem afectado algumas das maiores operadoras de telecomunicações do mundo. Embora as autoridades e a empresa continuem a investigar a origem, a dimensão e os responsáveis pelo incidente, a experiência internacional demonstra que ataques desta natureza podem provocar desde fugas massivas de dados até à paralisação quase total dos serviços durante vários dias.

Ao longo da última década, operadores de telecomunicações na Europa, Ásia e América tornaram-se alvos frequentes de grupos de cibercriminosos e de organizações ligadas à espionagem. Em alguns casos, os impactos limitaram-se ao roubo de informação. Noutros, milhões de clientes ficaram sem chamadas, Internet móvel, serviços financeiros e comunicações de emergência.

Os principais ataques às operadoras de telecomunicações

2015 – TalkTalk (Reino Unido)

Um dos primeiros grandes ataques ao sector ocorreu contra a operadora britânica TalkTalk. Os atacantes conseguiram aceder aos dados de cerca de 157 mil clientes, obrigando a empresa a suspender parte dos seus serviços digitais. A recuperação prolongou-se durante várias semanas e o incidente provocou elevados prejuízos financeiros e danos reputacionais.

2018 – Singtel (Singapura)

A maior operadora de Singapura sofreu uma violação de dados através de um fornecedor externo. Apesar de não ter havido interrupção significativa da rede, milhares de registos de clientes foram comprometidos, levando à abertura de uma investigação prolongada.

2020 – Magyar Telekom (Hungria)

A operadora húngara foi alvo de um ataque de negação de serviço distribuído (DDoS), que afectou temporariamente alguns serviços digitais. A situação foi controlada em poucas horas.

2021 – Orange (França)

A Orange detectou uma intrusão informática nos seus sistemas internos. Alguns serviços empresariais registaram perturbações durante cerca de um dia, mas a empresa conseguiu isolar rapidamente o incidente e minimizar os impactos.

2022 – La Poste Mobile (França)

A operadora francesa foi vítima de um ataque de ransomware levado a cabo pelo grupo LockBit. Para impedir a propagação do malware, parte da infra-estrutura informática foi desligada, provocando perturbações durante vários dias. A recuperação integral demorou semanas.

2023 – Kyivstar (Ucrânia)

Considerado um dos mais devastadores ciberataques alguma vez registados contra uma operadora de telecomunicações, o ataque à Kyivstar comprometeu praticamente toda a infra-estrutura tecnológica da empresa.

Cerca de 24 milhões de utilizadores ficaram sem chamadas, Internet móvel, mensagens SMS e diversos serviços digitais. A indisponibilidade afectou igualmente caixas automáticas, plataformas bancárias e sistemas de alerta utilizados durante o conflito na Ucrânia.

Os serviços começaram a ser restabelecidos apenas cerca de seis dias depois, enquanto a recuperação completa da infra-estrutura prolongou-se por várias semanas. O ataque foi posteriormente atribuído ao grupo russo Sandworm.

2024 – Free Mobile (França)

A operadora sofreu um roubo massivo de dados de clientes. Apesar da gravidade da fuga de informação, os serviços móveis mantiveram-se operacionais.

2024 – SFR (França)

Outra operadora francesa foi alvo de uma violação de dados, sem impacto significativo na continuidade da prestação dos serviços.

2025 – Orange (França)

Um novo incidente obrigou a Orange a isolar parte dos seus sistemas internos. Alguns serviços empresariais ficaram indisponíveis durante aproximadamente 48 horas, antes da normalização das operações.

2025 – Grandes operadoras dos Estados Unidos

AT&T, Verizon, Lumen e outras empresas norte-americanas foram alvo da campanha de espionagem conhecida como Salt Typhoon. Ao contrário dos ataques de ransomware, o objectivo não foi interromper os serviços, mas infiltrar-se silenciosamente nas redes para recolha de informação estratégica durante vários meses.

O que demonstra a experiência internacional?

Os casos registados demonstram que nem todos os ciberataques têm o mesmo impacto operacional.

Os ataques de negação de serviço (DDoS) costumam ser resolvidos em poucas horas. Já os ataques de ransomware podem provocar interrupções durante dias ou semanas, sobretudo quando obrigam à reconstrução de sistemas críticos.

Nos ataques mais destrutivos, como aconteceu com a Kyivstar, a recuperação pode prolongar-se durante semanas, exigindo a reinstalação de servidores, equipamentos e plataformas essenciais ao funcionamento da rede.

E a UNITEL?

No caso da UNITEL, continuam por esclarecer a origem, a natureza e os responsáveis pelo ataque.

Até ao momento, não existe qualquer reivindicação pública por parte de grupos internacionais de ransomware, nem foram identificadas publicações de informação em plataformas de extorsão utilizadas por organizações criminosas.

Especialistas em cibersegurança consideram, por isso, prematuro estabelecer paralelos técnicos com outros ataques internacionais. Contudo, a dimensão das perturbações registadas demonstra que as infra-estruturas críticas de telecomunicações continuam entre os principais alvos da criminalidade informática à escala mundial.

À medida que prosseguem as investigações, o caso da UNITEL poderá tornar-se um dos mais relevantes incidentes de cibersegurança alguma vez registados em Angola, reforçando a necessidade de investimentos contínuos na protecção das infra-estruturas digitais estratégicas para o funcionamento do Estado, da economia e da sociedade.

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