A economia do terrorismo e os desafios para a segurança nacional de Angola – Correio da Kianda

A evolução do terrorismo em África demonstra que as organizações extremistas já não podem ser analisadas apenas como movimentos armados de inspiração ideológica ou religiosa. A realidade actual evidencia que estes grupos desenvolveram sofisticados modelos de financiamento, transformando-se em verdadeiras estruturas económicas clandestinas, capazes de gerar receitas, movimentar capitais, explorar recursos naturais e integrar redes internacionais de criminalidade organizada.

O recente estudo sobre o financiamento do terrorismo em África revela uma mudança estrutural na forma como grupos como o Al-Shabaab, o Estado Islâmico na Somália, o Boko Haram, o Estado Islâmico da Província da África Ocidental (ISWAP) e o Grupo de Apoio ao Islão e aos Muçulmanos (JNIM) sustentam as suas actividades. Já não dependem exclusivamente de doações externas ou de patrocinadores ideológicos. Hoje, financiam-se através da extorsão, do tráfico de ouro, da exploração de minas artesanais, do roubo de gado, dos sequestros para resgate, da lavagem de dinheiro, das redes informais de transferência de valores e, cada vez mais, das tecnologias financeiras digitais.

Esta transformação obriga-nos a rever a forma como o terrorismo é encarado em África. O verdadeiro centro de gravidade destas organizações deixou de ser exclusivamente a capacidade militar; passou a ser a sua capacidade financeira. Enquanto existirem mecanismos eficazes de geração de receitas, estes grupos continuarão a recrutar combatentes, adquirir armamento, expandir a sua influência e desafiar a autoridade dos Estados.

É precisamente neste contexto que Angola deve prestar particular atenção aos desenvolvimentos em curso.

À primeira vista, Angola não figura entre os principais focos da actividade terrorista no continente. Contudo, essa constatação não deve conduzir a um sentimento de falsa segurança. A crescente sofisticação das redes financeiras do terrorismo significa que nenhum Estado africano está completamente imune aos seus efeitos indirectos.

A referência feita à participação de Angola na Operação Catalyst, coordenada pela Interpol e pela Afripol, demonstra precisamente esta realidade. As autoridades angolanas participaram em operações destinadas a identificar esquemas de branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo, culminando na detenção de indivíduos ligados a redes financeiras transnacionais. Este facto confirma que o território nacional pode ser utilizado como espaço de circulação de capitais ilícitos, mesmo que os actos terroristas sejam planeados ou executados noutros países.

A posição geoestratégica de Angola reforça igualmente esta preocupação. Localizado na costa atlântica da África Austral, com fronteiras extensas e intensas ligações comerciais regionais e internacionais, o país integra corredores logísticos que podem ser explorados por organizações criminosas para movimentar dinheiro, mercadorias e outros activos ilícitos. Num contexto de crescente integração económica regional, os riscos associados ao crime financeiro transnacional tendem igualmente a aumentar.

Outro aspecto que merece reflexão prende-se com a expansão do terrorismo na região da África Austral. A insurgência em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, demonstrou que grupos extremistas conseguem adaptar-se rapidamente às respostas militares e explorar fragilidades institucionais para manter a sua capacidade operacional. Embora Angola não partilhe fronteiras com Moçambique, ambos pertencem à SADC, organização que encara o terrorismo como uma ameaça colectiva à estabilidade regional. Assim, qualquer deterioração da segurança num Estado-membro produz inevitáveis repercussões sobre os restantes.

Do ponto de vista económico, importa igualmente reconhecer que o terrorismo afecta indirectamente países que não são palco de ataques. A insegurança reduz investimentos, aumenta os custos do comércio internacional, pressiona os mercados financeiros, dificulta projectos de infra-estruturas e compromete cadeias logísticas essenciais ao desenvolvimento económico africano.

Perante este cenário, a resposta de Angola não pode limitar-se à dimensão militar. O combate ao financiamento do terrorismo exige o reforço da inteligência financeira, da supervisão bancária, do controlo das fronteiras, da cibersegurança, da cooperação entre os órgãos de investigação criminal e da articulação permanente com organizações internacionais, como a Interpol, a Afripol, a União Africana e a SADC.

Importa igualmente investir na modernização dos mecanismos nacionais de prevenção do branqueamento de capitais, no acompanhamento das novas tecnologias financeiras e na capacitação das instituições responsáveis pela identificação de operações suspeitas. A crescente utilização de activos virtuais e de sistemas informais de transferência de valores representa um desafio que exige respostas técnicas cada vez mais especializadas.

Em última análise, a principal lição deste fenómeno é clara: o terrorismo do século XXI não se sustenta apenas pelas armas, mas sobretudo pelo dinheiro. Quem controla os fluxos financeiros controla, em larga medida, a capacidade operacional destas organizações. Consequentemente, combater o financiamento do terrorismo deve ser entendido como uma prioridade estratégica para a segurança nacional.

Para Angola, a prevenção continua a ser a melhor política. Num contexto internacional caracterizado pela crescente interligação entre terrorismo, criminalidade organizada e fluxos financeiros ilícitos, antecipar os riscos será sempre menos oneroso do que enfrentar as consequências de uma ameaça já instalada.

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