A mendicidade continua a fazer parte do quotidiano de várias zonas de Luanda, com crianças, jovens, adultos e idosos a recorrerem ao pedido de esmolas como forma de sobrevivência. Diante do fenómeno, especialistas defendem a adopção de medidas sociais capazes de reduzir a vulnerabilidade das famílias e interromper o ciclo de pobreza associado à prática.
Uma reportagem da Rádio Correio da Kianda constatou, numa ronda realizada na zona do Primeiro de Maio, diferentes realidades entre os cidadãos que pedem esmolas. Enquanto alguns relatam dificuldades económicas extremas, outros casos levantam preocupações sobre a utilização da mendicidade como uma prática prolongada ou até instrumentalizada.
Jamba, uma vendedora de ovos fervidos que acompanha diariamente a movimentação dos pedintes na zona, conta que a realidade envolve situações distintas.
“Estou aqui há três meses e, desde que comecei a vender aqui, acompanho tudo. Há pessoas que realmente precisam, mas também existem casos em que parece haver simulação da necessidade”, explicou.
Segundo a jovem, algumas famílias levam crianças para os locais de pedido de esmola, uma situação que considera preocupante, por entender que os menores acabam expostos a uma realidade que pode comprometer o seu desenvolvimento.
Entre os cidadãos ouvidos pela reportagem está Dona Teresa, que afirma pedir esmolas no Primeiro de Maio há cerca de 30 anos. A idosa diz que os valores conseguidos servem apenas para garantir a alimentação diária.
No mesmo local, a jovem Júlia conta que passa o dia a pedir ajuda, entre as 7 e as 18 horas, mas nem sempre consegue obter recursos suficientes. Sem documentos pessoais e desempregada, afirma que procura uma oportunidade de trabalho para mudar de vida.
Deolinda Anacleto, mãe de três filhos, relata que está há cinco anos na actividade e que, apesar das dificuldades, o seu maior desejo é conseguir um emprego e deixar de depender das esmolas.
Para o psicólogo Amâncio Justino, a mendicidade deve ser analisada como um problema social complexo, que envolve factores económicos, familiares e comportamentais. O especialista alerta para o fenómeno da chamada mendicidade instrumentalizada, em que algumas pessoas recorrem à exposição da vulnerabilidade como forma de obter rendimentos.
Segundo o psicólogo, a permanência prolongada nesta realidade pode afectar a forma como crianças e adultos enfrentam os desafios da vida, podendo gerar consequências emocionais e sociais.
“Quando crianças são colocadas nas ruas para arrecadar dinheiro, acabam por assumir responsabilidades que pertencem aos adultos”, afirmou.
O sociólogo Cláudio Lopes considera que o aumento da mendicidade está associado às dificuldades económicas enfrentadas por muitas famílias e defende uma intervenção mais ampla do Estado, com políticas de protecção social, inclusão no mercado de trabalho e criação de mecanismos que garantam autonomia financeira.
Especialistas defendem que o combate à mendicidade em Luanda não deve limitar-se à retirada das pessoas das ruas, mas deve envolver programas de acompanhamento social, apoio às famílias vulneráveis, formação profissional e oportunidades de emprego. O fortalecimento dos sistemas de protecção social é apontado como uma das medidas essenciais para reduzir situações de extrema vulnerabilidade.
As autoridades angolanas já realizaram acções relacionadas com crianças em situação de rua e casos de utilização de menores para mendicidade, defendendo intervenções conjuntas entre os sectores da assistência social, justiça e protecção da criança.
A reportagem tentou ouvir o Instituto Nacional da Criança (INAC) e a Administração Municipal da Ingombota, mas não obteve pronunciamentos.

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