Professora comunitária aponta preconceito social como principal entrave à alfabetização de adultos – Correio da Kianda

A professora e alfabetizadora comunitária Jocelina Alberto defendeu, esta terça-feira, 28, que o preconceito social e a vergonha continuam a ser dos principais obstáculos à alfabetização de adultos em Angola. As declarações foram feitas durante uma entrevista ao programa Tardes da Kianda, da Rádio Correio da Kianda.

Criado em 2015, o projecto liderado por Jocelina nasceu com o objectivo de desenvolver competências básicas de leitura e escrita, promovendo a inclusão educacional e melhorando a comunicação dos formandos. Em 2023, a iniciativa passou a abranger também adultos, depois de a educadora receber a sua primeira aluna sem qualquer domínio da leitura e da escrita.

A experiência levou-a a dedicar-se cada vez mais à alfabetização de adultos, tendo posteriormente trabalhado com uma mulher cadeirante, cujo progresso chamou a atenção de uma fundação de apoio a pessoas com deficiência, que a convidou a integrar acções de alfabetização.

Apesar do novo foco, Jocelina Alberto garante que continua a trabalhar com crianças, sobretudo no reforço escolar.

Segundo a alfabetizadora, ensinar adultos exige métodos específicos, uma vez que muitos carregam traumas provocados pela exclusão escolar e pelo estigma social. Por isso, defende que o educador deve conhecer a realidade e as capacidades de cada formando antes de iniciar o processo de aprendizagem.

Para facilitar o ensino, utiliza uma técnica baseada em símbolos que auxiliam na construção de letras cursivas, palavras e frases, permitindo aos alunos melhorar a escrita, a comunicação e a autoestima.

A professora revelou ainda que está a estruturar um novo projecto de alfabetização para adultos, destinado a pessoas analfabetas absolutas e funcionais, com o propósito de ajudá-las a desenvolver competências de leitura, escrita e interpretação de textos.

Durante a entrevista, Jocelina partilhou também a sua história de superação. Cadeirante desde os sete anos de idade, afirmou que nunca permitiu que a deficiência limitasse os seus objectivos.

“A deficiência física não nos impede de absolutamente nada.”

Um dos seus maiores sonhos é levar aulas de alfabetização para a televisão, permitindo que pessoas impossibilitadas de frequentar a escola possam aprender a ler e a escrever a partir de casa. A ideia surgiu em 2023, depois de conhecer o caso de uma adolescente com deficiência que, por vergonha da família, foi impedida de estudar.

Embora já tenha apresentado a proposta a algumas estações televisivas, continua à procura de parceiros para concretizar o projecto, que considera essencial para reduzir os elevados índices de analfabetismo no país.

“Apelo às entidades competentes para que se envolvam neste projecto, porque Angola ainda possui um número muito elevado de analfabetos absolutos e funcionais. Temos de mudar esta realidade”, afirmou.

No final da entrevista, deixou uma mensagem de encorajamento a todos os adultos que ainda não sabem ler nem escrever:

“Não sintam vergonha. Vão atrás do conhecimento. A leitura e a escrita são essenciais para a vida e para a comunicação. Tudo é possível quando existe coragem para aprender.”

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